Os Sete

Antes de começar este post, vamos a uma consideração teórica. Literatura de horror é parte da literatura de fantasia? Bem, se pensarmos em literatura de fantasia como uma literatura que apresenta mundos e/ou elementos fantasiosos, sim. Mas o que são elementos fantasiosos? Bruxas, vampiros, magia, urucubaca, espíritos, universos paralelos? Bem, algumas pessoas não considerariam tudo isso como algo fantasioso. rs Mas vamos partir dessa idéia de que esses elementos fantasiosos caracterizam a fantasia e por consequência, a literatura de fantasia. Estariam aí incluídos então no mesmo balaio livros tão discrepantes quanto Dracula, de Bram Stoker, e Crepúsculo de Stephanie Meyer???????

É uma questão no mínimo controversa. Um possível modo de raciocínio é dizer que a literatura de fantasia pode ser dividida em subgêneros. Dessa forma, teríamos a literatura de fantasia no subgênero romance, comédia, paródia, suspense, horror e é claro, a fantasia clássica. Mas o que é a fantasia clássica, meu Deus? O Senhor dos Anéis, Alice no País das Maravilhas, Frankenstein?

Bem, minha idéia não é oferecer uma resposta de teoria da literatura para a questão (até porque acredito que esse tipo de coisa só possa ser discutida, nunca realmente resolvida), mas simplesmente jogar uma idéia na roda. Agora vamos ao livro propriamente dito.

Título: Os Sete

Autor: André Vianco

Ano de publicação: 2000

País de Origem: Brasil

Editora: Novo Século – 380 páginas

Não vou mentir: comprei esse livro porque estava em promoção na Submarino, e, segundo o que consta minha letra na folha de rosto (sempre escrevo meu nome e data de compra dos livros), isso foi em janeiro do ano passado. Até então nunca tinha ouvido falar em André Vianco. Mais

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Crônicas do Mundo Emerso Vol. 1 – A Garota da Terra do Vento

Título: Crônicas do Mundo Emerso Vol. 1: A Garota da Terra do Vento
Título original: Cronache Del Mondo Emerso – Nihal della Terra del Vento
Autor: Licia Troisi
Ano de publicação: 2004
País de origem: Itália
Tradução: Mario Fondelli
Editora: Rocco – 318 páginas

Esse livro surgiu um tanto inesperadamente pra mim e foi uma surpresa incrivelmente boa. Comprei a coleção toda num pacote na Submarino por um precinho beleza só por ter achado a idéia central interessante (garota guerreira numa terra imaginária) e por ter lido uma resenha dizendo que o amadurecimento dos personagens principais era o fator mais importante do livro.

Não vou fazer spoilers, então pode ler sem medo. O que conto está no primeiro capítulo, basicamente.

Nihal é uma garota da Terra do Vento (duh) que sonha em ser um guerreiro. Obviamente, mulheres não são aceitas na Ordem dos Cavaleiros Dragão, mas ela é, até então, apenas uma menina sonhadora. Seu pai é Livon, um ferreiro, o que só aumenta o amor pelas armas de Nihal, já que ela tem contato constante com espadas e cavaleiros vindos de todo o Mundo Emerso. O comportamento de Nihal, apesar de ser considerado bizarro por todo mundo (uma mulher guerreiro, imagina! rs), acaba sendo de certa forma “perdoado” uma vez que ela é realmente boa. O que nos leva à primeira grande característica de Nihal: ela sabe que é boa com a esapada, o que a torna corajosa mas ao mesmo tempo uma metida a besta. Mais

Sobre personagens cativantes

Sempre que eu começo a ler um livro, fantasia ou não – a maior parte das vezes é – encontrar personagens cativantes é o meu primeiro instinto. O princípio é bem básico: se eu não quero saber o que acontece com o moleque franzino morando no armário embaixo da escada, dane-se ele, vou ali tuitar. Pra quem já teve aulas muito densas de literatura, o que eu e a Mel falamos nesse blog vai ser heresia. Se eu não me interesso por um personagem, ou pelo menos por algum que o rodeie e que tenha participação ativa na história, eu não leio e acabou. Pode ser melhor enredo que já tocou papel e prensa nessa vida, pode ser o melhor uso de linguagem, mais revolucionário, enfim. O que sempre conta pra mim é o personagem.

Não por acaso, os livros de fantasia tendem a ter personagens cativantes. Quando digo cativante, não estou necessariamente falando de um menino órfão, coitadinho, que não faz mal a ninguém. Veja bem, a minha idéia de cativante envolve uma mistura de interesse e identificação. De interesse, porque não é algo óbvio, não é mais um personagem da Malhação que toma suco de maracujá quando está muito nervoso. É alguém com tiques, falhas, com uma fala particular e com uma variável de possíveis reações frente aos acontecimentos. E de identificação, porque mesmo que não sejamos iguais a um personagem, reconhecemos algo de humano e de próximo de nós, algum sentimento que nos una no contrato da verossimilhança, e talvez até mesmo da catarse. Quando você vê um cara pequenininho atravessando o mundo que ele conhece contra todas as possibilidades pra jogar um anel no fogo e salvar a Terra Média, tem um pouco de nós ali também. Quando a história acaba, parece que nós, também, fomos um pouco responsáveis pela conquista.

Se eu não estivesse lá, o Harry nunca teria conseguido voltar e proteger todos com o mesmo encanto da mãe dele.

Se eu não estivesse lá, talvez o Sam não tivesse tido força pra pegar o Frodo nas costas quando necessário (pra mim, a segunda cena mais linda da trilogia).

Se eu não estivesse lá, talvez o Artemis nunca tivesse conseguido se safar de um colapso temporal só uma troquinha de olhos de nada com a Holly.

Se eu não estivesse lá… Muitas coisas talvez não tivessem acontecido.

Em Harry Potter, série favorita minha e da Melissa, essa identificação vem em uma fala do Dumbledore, depois carregada pelos fãs e pela série toda através de todos os personagens “do bem”: “Enquanto houver em Hogwarts quem for fiel a mim, não terei ido completamente”. Parafraseei, mas enfim.

Por isso, nas poucas vezes que me aventurei a escrever, eu costumava bancar a louca e conversar com meus personagens no dia a dia. Fiz uns contos pra me acostumar com eles, pra enxergá-los mais claramente. Relaciono isso sempre com pessoal que se indignam quando alguém diz que um vampiro não pode brilhar no sol; se vampiros não existem, a imaginação deveria ser a única responsável por limitar o que eles podem ou não ser, não é? Eu não diria que esses seres mágicos ou que esses personagens cativantes não existem. Eles existem, enquanto eu existir e pensar neles.

Sobre ser fã de fantasia

A minha vida inteira li livros de fantasia. É engraçado porque eles fazem parte da minha cultura pessoal. Eu faço referências, piadas, ironias com livros de fantasia e normalmente as pessoas olham pra mim com aquela cara de não-entendo-porra-nenhuma-do-que-você-tá-falando. Outro dia estava conversando com um colega americano sobre como a nossa cultura afeta o modo como encaramos o mundo. O assunto, claro, era falar uma língua estrangeira. E ele falou: “Eu falo português, mas não consigo deixar pra trás o fato que sou americano de Boston, que morava numa cidade pequena, que tenho dois filhos, que gosto disso e disso disso. E você não pode esquecer que é brasileira e que mesmo que fale inglês muito bem, tem sua cultura brasileira”. Na hora eu disse: “Claro, sou brasileira mas tem uma cultura que me influencia muito mais, que é a dos livros de fantasia”. Ele achou que era uma piada. Mas não era.

O modo como encaro o mundo é mediado por vários conceitos que aprendi lendo pilhas e pilhas de livros sobre lugares que não existem. Por exemplo, se alguém é engraçado, meu paradigma de pensamento é Ron, de Harry Potter, Pippin de O Senhor dos Anéis. Se é alguém é  dominador, a imagem que vem é de Voldemort, da mesma forma que se alguém dá um conselho, eu vejo um mago de capa e barba e se a idéia é a pessoa dissimulada, nada melhor que a Sra Colter de Fronteiras do Universo. E isso não vale só para pessoas, mas também para o que acredito: valor da amizade, importância do trabalho em equipe, crença no amor apesar do mundo caótico, liderança, enfrentar o medo, valorizar o que se é, temas tão lugar-comum para todos que já leram esses livros.

E a relação que tenho com esse mundo ainda vai muito além. Nos momentos mais difíceis da minha vida, me apoei nesse tipo de leitura para tentar lidar com as coisas. Eu sei que isso soa muito aut0-ajuda, mas é que enquanto eu tentava superar meus desafios pessoais, lia fantasia e aquilo de alguma forma me fazia pensar que ainda havia alguma esperança.

Mas nem todas as pessoas entendem isso. Principalmente quando você estuda Letras numa universidade renomada e é bombardeado com o cânone da literatura. Dizer que seu livro favorito é Harry Potter mesmo depois de você ter lido Poe, Henry James, Guimarães Rosas, Eliot, Proust e bla bla bla é assinar um atestado de descrédito. Okay, reconheço o talento de todos esses autores, gosto de literatura canônica, estudo literatura canônica, mas putz, eu prefiro J.K.Rowling. De verdade.

O poder de uma boa história. É isso que me cativa. Um bom personagem, um drama pessoal interessante, um imaginário diferente. Não um monte de trabalho com linguagem, metáforas complexas, temas profundos e fragmentados… Sou uma pessoa passional. E é a passionalidade que me fascina. E é isso que eu encontro nos livros de fantasia.