Sobre ser fã de fantasia

A minha vida inteira li livros de fantasia. É engraçado porque eles fazem parte da minha cultura pessoal. Eu faço referências, piadas, ironias com livros de fantasia e normalmente as pessoas olham pra mim com aquela cara de não-entendo-porra-nenhuma-do-que-você-tá-falando. Outro dia estava conversando com um colega americano sobre como a nossa cultura afeta o modo como encaramos o mundo. O assunto, claro, era falar uma língua estrangeira. E ele falou: “Eu falo português, mas não consigo deixar pra trás o fato que sou americano de Boston, que morava numa cidade pequena, que tenho dois filhos, que gosto disso e disso disso. E você não pode esquecer que é brasileira e que mesmo que fale inglês muito bem, tem sua cultura brasileira”. Na hora eu disse: “Claro, sou brasileira mas tem uma cultura que me influencia muito mais, que é a dos livros de fantasia”. Ele achou que era uma piada. Mas não era.

O modo como encaro o mundo é mediado por vários conceitos que aprendi lendo pilhas e pilhas de livros sobre lugares que não existem. Por exemplo, se alguém é engraçado, meu paradigma de pensamento é Ron, de Harry Potter, Pippin de O Senhor dos Anéis. Se é alguém é  dominador, a imagem que vem é de Voldemort, da mesma forma que se alguém dá um conselho, eu vejo um mago de capa e barba e se a idéia é a pessoa dissimulada, nada melhor que a Sra Colter de Fronteiras do Universo. E isso não vale só para pessoas, mas também para o que acredito: valor da amizade, importância do trabalho em equipe, crença no amor apesar do mundo caótico, liderança, enfrentar o medo, valorizar o que se é, temas tão lugar-comum para todos que já leram esses livros.

E a relação que tenho com esse mundo ainda vai muito além. Nos momentos mais difíceis da minha vida, me apoei nesse tipo de leitura para tentar lidar com as coisas. Eu sei que isso soa muito aut0-ajuda, mas é que enquanto eu tentava superar meus desafios pessoais, lia fantasia e aquilo de alguma forma me fazia pensar que ainda havia alguma esperança.

Mas nem todas as pessoas entendem isso. Principalmente quando você estuda Letras numa universidade renomada e é bombardeado com o cânone da literatura. Dizer que seu livro favorito é Harry Potter mesmo depois de você ter lido Poe, Henry James, Guimarães Rosas, Eliot, Proust e bla bla bla é assinar um atestado de descrédito. Okay, reconheço o talento de todos esses autores, gosto de literatura canônica, estudo literatura canônica, mas putz, eu prefiro J.K.Rowling. De verdade.

O poder de uma boa história. É isso que me cativa. Um bom personagem, um drama pessoal interessante, um imaginário diferente. Não um monte de trabalho com linguagem, metáforas complexas, temas profundos e fragmentados… Sou uma pessoa passional. E é a passionalidade que me fascina. E é isso que eu encontro nos livros de fantasia.

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12 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Redd
    ago 22, 2010 @ 22:55:56

    acabei de descobrir o blog e gostei da ideia… sei como é ter livros de fantasia como referencia. adoro. e sei q nem todo mundo entende isso. ou mais, nem todo mundo aceita isso… pq tem mta gente q olha com desdém qdo vc toca no assunto. ano passado resolvi enfrentar essa gente: fiz a minha monografia falando sobre Stardust, livro do Neil Gaiman, e não sobre algum outro cânone da literatura inglesa…

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    • Melissa
      ago 23, 2010 @ 15:58:52

      Isso é que é enfrentar. Mas ainda acho que o pessoal da literatura inglesa tem um preconceito a menos. Eles fazem cara feia, mas ao menos aceitam. Agora falar com o povo da Teoria da Literatura… ai ai.

      Responder

  2. Mi
    ago 23, 2010 @ 00:45:37

    Amei a ideia do blog. XD
    Buenas, achei muito boa a discussão que tu puxaste. Primeiro pq eu acho que esse povo que defende o “cânone literário” tão ultrapassado quanto o Harold Bloom. Segundo pq eu acho uma baita bobagem esse preconceito arcaico contra a fantasia.
    Os estudiosos de literatura me parecem não serem muito abertos ao novo. Os critérios que eles usam para definir o que “não é literatura” é ultrapassado e embolorado. É fácil dizer o que é, mas o que não é não me parece ser bem assim. Não dá pra colocar Tolkien e romances de banca de jornal no mesmo saco. E uma vez que eles fazem isso, pelo menos pra mim, perdem a credibilidade.
    E eu não sei qual a saída que eles devem arrumar, mas o fato é que devem! Afinal, é cada vez mais dificil fazer com que as crianças gostem de ler. E é certo que dando “clássicos do cânone literário” que isso não vai acontecer, né?
    Agora o interessante é que crianças que lêem fantasia acabam indo para outras leituras e, consequentemente, chegando ao cânone.
    Mas Harry Potter não é literatura e não deveria ser lido, né? Ah, vão pra PQP! Harold Bloom, passe mal e morra no hospital!
    Harry Potter pode não ser meu livro preferido, mas definitivamente é o livro que mais amo e a relação que construi com ele e em torno dele, nunca mais vou construir com livro nenhum. E assim como foi comigo, isso foi com tantos outros leitores de HP. Olha tudo que um reles livrinho infanto-juvenil fez? Crianças lendo adoidada, crianças que aprenderam a ler em lingua estrangeira, que aprenderam a traduzir, a argumentar, a escrever e todo o resto que envolve o fandom potteriano. Dá pra colocar no mesmo nível de romance de banca de jornal? Não dá, né?
    bjs e sucesso. Adorei o blog

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    • Melissa
      ago 23, 2010 @ 16:05:11

      Mas esse é o problema, Mi. Eles jogam tudo no mesmo balaio e nem se dão ao trabalho de ler e ver o que acha. Claro que tem muita porcaria nesse meio, mas também tem muita coisa boa. Como tem em todos os campos literários, não é mesmo?

      O Harold Bloom é uma banana de pijama. Eu tenho uma preguiça só de ouvir falar o nome dele… Eu não sei, essa coisa de ficar dizendo o que é e o que não é… Não dizem que estamos na pós-modernidade? Que escrever um livro de 200 páginas que não fala absolutamente sobre nada é literatura? Então por que diabos essa negação da literatura de fantasia? Principalmente no Brasil?

      Eu acho que o rechaço disso tudo é pior no Brasil do que em outros países… Aqui, qualquer escritor que escreva a palavra “elfo” num livro é automaticamente rotulado como literatura infantil. O que nem sempre é o caso.

      Responder

  3. Mi
    ago 24, 2010 @ 00:24:38

    Eu perco a paciência com eles, Mel. Deve ser por isso que eu ando e ando e sempre acabo indo parar na linguística, que evita azia. E olha que literatura é o amor da minha vida. =D

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  4. Gustavo Domingues
    ago 26, 2010 @ 02:42:57

    Ser fã da literatura popular sempre foi um assunto complicado.
    Orgulho e Preconceito de Jane Austen é um exemplo de romance excelentemente escrito, que caiu no gosto da população letrada em 1797. Mas os críticos especializados não gostavam da história visualizada por uma mulher e o livro fora considerado banal, apesar de ser um soco na cara da banalidade da época.
    O Senhor dos anéis chegou a ser desprezado pelos críticos da época em que foi lançado também. O New York Times, com críticos com gostos voltados para a literatura inglesa tradicional, chegou a chamar a obra prima de Tolkien de “Morte à própria literatura”, tachando o livro de pedante e pretensioso.
    Moby-Dick não foi bem aceito, A Revolução dos Bichos, O Senhor das Moscas e O Apanhador no Campo de Centeio também não. Todos tinham uma linguagem mais acessível para suas próprias épocas e são considerados clássicos literários até hoje. Meu Deus! Até Fiódor Dostoiévski e Leon Tolstói não eram admirados em seus tempos! E estes por sua vez nem eram tão acessíveis.
    A maioria da literatura popular foi impulsionada pela sede de literatura fantástica americana. Desde a época da conquista do oeste, livros de histórias divertidas, cativantes e fantasiosas sempre fizeram sucesso no país que sempre possuiu uma grande parcela da população alfabetizada, mas menos dominada pela aristocracia como era o caso do Reino Unido.
    O Senhor dos Anéis mesmo fez sucesso nos EUA antes do próprio Reino Unido, e tudo graças aos Hippies.
    A literatura fantástica nos EUA sempre foi esmagadora, e não é de hoje:Michael Moorcock, R.A. Salvatore, Rachel Weis, Robert N. Charrette e Frank Herbert são apenas alguns grandes escritores americanos que tiveram suas obras literárias fantásticas entre os mais vendidos do New York Times.
    Não vejo grandes méritos em sagas como as de Harry Potter e Crepúsculo (pelo menos não como vejo em sagas como Percy Jackson, Aventuras do Caça Feitiço, Crônicas Vampirescas ou qualquer livro de Bernard Cornwell/Conn Iggulden)), mas não sou cego a ponto de negar o bem que estes livros trouxeram com o frenesi da literatura jovem.
    Os críticos em geral são uma contra-cultura. Eles apontam defeitos que ninguém quer ver e são pagos por isso, e acham divertido terem gostos controversos, para serem considerados sempre opositores.
    Mas no Brasil eu vejo que ainda existe não só uma resistência fenomenal da crítica, como um uma adoração de viés nacionalista direcionada aos autores clássicos nacionais, que provêem de uma casta elitizada e egocêntrica, sempre escrevendo sobre os aspectos mais desinteressantes do país e da cultura brasileira.
    Literatura brasileira me deprime, eles nunca foram reconhecidos pelo público internacional e nunca vão ser, enquanto nós temos de deglutir forçosamente o “orgulho” do país. Não encontramos um único escritor brasileiro entre as listas dos grandes do mundo. E não adianta dizer que só há anglo-saxões entre os grandes, porque posso citar Miguel de Cervantes, Isabel Allende, Kazuo Ishiguro, Mario Puzo e Alexandre Dumas só como alguns exemplos das listas.
    Acho que acabei me desviando um pouco…
    Ótimo post.
    Abraços.

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    • Melissa
      ago 26, 2010 @ 20:10:03

      Entendo essa sua angstia em relao literatura brasileira, principalmente porque sou aluna do curso de Letras. A literatura brasileira em geral parece ter uma grande resistncia fantasia ou ao fantstico, valorizando apenas a crtica social. uma literatura que se diz muito politizada, mas que caiu na mesmice. A repetio da frmula da crtica social cansou o pblico e at mesmo parte da crtica. frustrante sofrer o descaso acadmico e at mesmo das editoras, que se recusam a publicar livros nacionais que abordem temas fantasiosos ou fantsticos, considerando-os de “menor importncia”. O que um paradoxo uma vez que essas editores praticamente vivem s custas de sucessos internacionais como Harry Potter, Crepsculo, O Senhor dos Anis, Percy Jackson e Cia…. no mnimo uma piada.

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  5. Liége
    dez 08, 2011 @ 02:32:21

    Também fiz Letras… entendo PERFEITAMENTE do que está falando… *_*

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  6. Rodrigo
    mar 17, 2012 @ 21:37:01

    Putz Melissa, você falou a mais pura verdade. É bom ver que eu não sou o único que pensa assim. É duro essas pessoas que não entendem o prazer de ler um livro de fantasia. A maioria das pessoas que criticam nunca leram e só fazem isso para poder manter seu status de pessoa série,ou algo assim. Realmente não entendo…

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    • Melissa
      mar 18, 2012 @ 20:20:38

      Rodrigo, pois é, infelizmente ainda tem muita gente que acha que livro de fantasia é sinônimo de livro infantil e que é literatura não-séria. Uma pena.

      Responder

  7. Rodrigo
    mar 17, 2012 @ 21:55:32

    seria*

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