Sobre personagens cativantes

Sempre que eu começo a ler um livro, fantasia ou não – a maior parte das vezes é – encontrar personagens cativantes é o meu primeiro instinto. O princípio é bem básico: se eu não quero saber o que acontece com o moleque franzino morando no armário embaixo da escada, dane-se ele, vou ali tuitar. Pra quem já teve aulas muito densas de literatura, o que eu e a Mel falamos nesse blog vai ser heresia. Se eu não me interesso por um personagem, ou pelo menos por algum que o rodeie e que tenha participação ativa na história, eu não leio e acabou. Pode ser melhor enredo que já tocou papel e prensa nessa vida, pode ser o melhor uso de linguagem, mais revolucionário, enfim. O que sempre conta pra mim é o personagem.

Não por acaso, os livros de fantasia tendem a ter personagens cativantes. Quando digo cativante, não estou necessariamente falando de um menino órfão, coitadinho, que não faz mal a ninguém. Veja bem, a minha idéia de cativante envolve uma mistura de interesse e identificação. De interesse, porque não é algo óbvio, não é mais um personagem da Malhação que toma suco de maracujá quando está muito nervoso. É alguém com tiques, falhas, com uma fala particular e com uma variável de possíveis reações frente aos acontecimentos. E de identificação, porque mesmo que não sejamos iguais a um personagem, reconhecemos algo de humano e de próximo de nós, algum sentimento que nos una no contrato da verossimilhança, e talvez até mesmo da catarse. Quando você vê um cara pequenininho atravessando o mundo que ele conhece contra todas as possibilidades pra jogar um anel no fogo e salvar a Terra Média, tem um pouco de nós ali também. Quando a história acaba, parece que nós, também, fomos um pouco responsáveis pela conquista.

Se eu não estivesse lá, o Harry nunca teria conseguido voltar e proteger todos com o mesmo encanto da mãe dele.

Se eu não estivesse lá, talvez o Sam não tivesse tido força pra pegar o Frodo nas costas quando necessário (pra mim, a segunda cena mais linda da trilogia).

Se eu não estivesse lá, talvez o Artemis nunca tivesse conseguido se safar de um colapso temporal só uma troquinha de olhos de nada com a Holly.

Se eu não estivesse lá… Muitas coisas talvez não tivessem acontecido.

Em Harry Potter, série favorita minha e da Melissa, essa identificação vem em uma fala do Dumbledore, depois carregada pelos fãs e pela série toda através de todos os personagens “do bem”: “Enquanto houver em Hogwarts quem for fiel a mim, não terei ido completamente”. Parafraseei, mas enfim.

Por isso, nas poucas vezes que me aventurei a escrever, eu costumava bancar a louca e conversar com meus personagens no dia a dia. Fiz uns contos pra me acostumar com eles, pra enxergá-los mais claramente. Relaciono isso sempre com pessoal que se indignam quando alguém diz que um vampiro não pode brilhar no sol; se vampiros não existem, a imaginação deveria ser a única responsável por limitar o que eles podem ou não ser, não é? Eu não diria que esses seres mágicos ou que esses personagens cativantes não existem. Eles existem, enquanto eu existir e pensar neles.

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2 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Mel
    ago 22, 2010 @ 21:17:26

    Concordo 100%. Se não tem personagens cativantes, a história já vai pro buraco. E sabe, acho que esse é o grande problema de His Dark Materials [Fronteiras do Universo]. Eu simplesmente não vejo graça na Lyra. Por outro lado, Harry Potter tem tantos personagens cativantes que é até difícil…

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  2. Mi
    ago 23, 2010 @ 00:55:49

    Personagens cativantes são essenciais para uma boa histórias. Seja a história que for.
    Felizmente eles não ficam só no território da fantasia. Mais do que por qualquer outra razão os leitores de O tempo e o vento, de Erico Verissimo, amam o livro por seus personagens do que por qualquer outra razão, apenas pra citar um exemplo fora da fantasia. Por que são personagens tão bem bolados e com caracteristicas tão marcadas que não tem como não se identificar com um ou outro. Lembro que o Major Toríbio Cambará, junto com Heathcliff, é claro, foi a minha primeira paixão literária. XD

    Responder

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