Entrevistas: Pauline Alphen

Nossa coluna de entrevistas aqui do Livros de Fantasia estreou na melhor forma. A escolhida para inaugurar nossa conversa com escritores foi ninguém menos que a super simpática (e talentosa!) Pauline Alphen, autora brasileiro-francesa da série Crônicas de Salicanda.

Pauline, com um jeito muito atencioso, respondeu as nossas perguntas por e-mail, incluindo  três perguntas enviadas por leitoras fiéis aqui do blog que ganharam uma camiseta exclusiva da Companhia das Letras da série Crônicas de Salicanda. Na entrevista, a escritora fala um pouquinho de sua rotina de escrita, como foi imaginar o mundo de Salicanda, quais são suas influências literárias e como elas aparecem em sua série mais famosa.

 Estou mais interessada em brincar com essas fronteiras entre os gêneros. O que me interessa é imaginar, deslocar, misturar. (Pauline Alphen)

Venha conheçar um pouco mais de Salicanda e do universo de Pauline Alphen!

 1. Crônicas de Salicanda – Os Gêmeos foi o primeiro livro que você escreveu em francês, antes disso você publicou em português pela Companhia das Letras. Por que essa mudança de línguas? Como você encara essa questão de ser bilíngüe e escrever em duas línguas diferentes?

Antes de Os Gêmeos, em francês, publiquei um documentário-ficção infanto-juvenil sobre o Brasil. Sempre naviguei entre as duas línguas. Publiquei primeiro em português porque morava no Brasil na época. Estou de volta na França há mais de 20 anos, então voltei a escrever em francês. O que não impede que tenha projetos em português também.

Durante muito tempo, eu achei que precisava escolher entre uma língua e outra, que se escrevesse numa, esqueceria a outra. Na adolescência, esse bilingüismo me deu uma certa dor de cabeça. Hoje, estou tranqüila com isso, entendo que não preciso escolher, uma língua alimenta a outra e é enriquecedora essa ponte. Escolho a língua na qual escrevo em função do projeto, do país onde estou.

2. Quando você percebeu que o que gostava de fazer na vida era escrever e resolveu ser escritora? Como foi seu processo de publicação? Que dificuldades enfrentou, e o que a surpreendeu no processo? Você vive da sua escrita agora e tem planos para outros livros, além da série? (enviada pela leitora fiel Karen Alvares, contista e dona do blog Eu, Papel & Palavraswww.papelepalavras.worpress.com)

Capa do primeiro volume da série na edição francesa

Eu desconfiei ao 10 anos de idade que era o que eu gostava na vida. Aos 16, escrever era uma necessidade tão inquestionável quanto respirar. Eu não estava interessada em “ser escritora”, só em escrever. Foi o que fiz durante… décadas! Todas as minhas atividades profissionais estavam de alguma forma relacionadas com a leitura e a escritura. Trabalhei como jornalista, tradutora, redatora, roteirista, leitora crítica para editoras. Até que alguém em que eu confiava achou que o que eu escrevia era suficientemente bom para ser publicado: foi “A Odalisca e o Elefante”. Depois desse primeiro livro, outros seguiram. Cada vez mais, sentia o desejo urgente de dedicar mais tempo à escritura, o que não era possível já que precisava trabalhar para viver. Essa é a parte difícil: viver de direitos autorais é raro. A boa notícia é que hoje, graças ao sucesso da série, posso dedicar a maior parte do meu tempo à escritura.

3. Já li alguns escritores comentando sobre sua rotina de escrita. Você tem uma? Como é seu processo de escrita? Você escreve à mão ou no computador?

Começo a trabalhar de manhã, uma vez as crianças na escola. Atravesso o jardim e vou para o escritório que é, para mim, um lugar muito especial que instalei e arrumei para escrever. Trabalho lá até o fim da tarde, com uma pausa rápida para almoçar.

Escrevo no computador, cercada de livros e dicionários, de imagens também. Mas posso escrever em qualquer outro lugar, no metrô, viajando.

As “Crônicas de Salicanda” são um projeto complexo e demorado, o computador ajuda muito na organização do trabalho. Mas escrevo também à mão, em cadernos que trago sempre comigo.

4. Qual foi a inspiração para criar Salicanda? De onde surgiu a ideia para a ambientação do livro e seus personagens? Você gostaria de viver no mundo que criou? (enviada pela leitora fiel Liége Báccaro Toledo, autora do livro O Enigma da Lua  – www.oenigmadalua.blogspot.com).

Surgiram primeiro os personagens: dois irmãos, idênticos e inversos, num lugar parecido com um castelo, num mundo sem tecnologia. Esse foi o ponto de partida: uma imagem. Quando transcrevi essa imagem em palavras, descobri que, atrás dela, pulsava um universo complexo, uma longa história envolvendo vários personagens.

É uma boa pergunta: será que gostaria de viver no mundo que criei ? Eu não criei um mundo que combinasse com um ideal ou um pesadelo pessoal. Nem acho que o que descrevo é o que vai acontecer ou gostaria que acontecesse. Acho que o que mais me agrada  em Salicanda é a forma como o tempo se desenrola. Um tempo humano em que se anda a pé, se escreve à mão. Uma respiração mais lenta. Como todo mundo, ando de carro, de trem e de avião e uso computador e celular. Mas, cada vez mais, tenho a sensação que somos escravos da pressa, da instantaneidade, da comunicação exagerada. Quando escrevo as Crônicas, entro num espaço onde tudo fica amplo e mais vagaroso. É uma sensação boa.

A capa do primeiro volume da série na edição brasileira

5. Falando ainda de Salicanda, o livro mistura elementos de fantasia com ficção científica e é difícil determinar qual é o gênero do livro. Pra você, as duas coisas (fantasia e ficção científica) sempre foram próximas ou foi uma visão que surgiu ao decorrer do desenvolvimento da série Crônicas de Salicanda? Quais são suas influências literárias desses dois gêneros?

A Fantasia oferece uma grande liberdade para uma ficção, maior talvez do que a ficção cientíifica que implica numa base científica (ou pseudo). Não sei qual é o gênero das Crônicas de Salicanda. Ao escrever as Crônicas, não me pergunto se escrevo fantasia, distopia ou ficção científica. Estou mais interessada em brincar com essas fronteiras entre os gêneros. O que me interessa é imaginar, deslocar, misturar. Influências são difíceis de detectar em si mesma mas posso indicar alguns dos escritores de que gosto nessas gêneros específicos da Fat-ntasy e da Ficção Científica: J.R.R. Tolkien, Ray Bradbury, Frank Herbert, Robin Hobb, Robert Silverberg, Ursula Le Guin, Guy Gavriel Kay, Phulip Jpsé Farmer, Clive Barker, M.Z. Bradley. Mas há muitos outros autores em outros gêneros que são importantes para mim.

6. Como foi feita a escolha dos nomes dos personagens da história? Esses nomes existem mesmo ou foram criados para enfatizar a atmosfera de fantasia do livro? Alguma escolha foi para homenagear um conhecido? (enviada pela leitora fiel Camila Guello, do blog Leitora Compulsivawww.leitoracompulsiva.com.br).

Os nomes dos personagens chegam geralmente junto com o personagem. Não sei por quê mas isso me vem fácil. Alguns foram criados (como Eben inspirado no ébano, Sierra inspirada na natureza, Dag que significa “adaga” em francês), alguns são homenagens a pessoas que conheco (Claris, Jad, Gabriel), outros a personagens de livros (Borges, Blaise), outros (Chandra) achei que tinha inventado e descobri que existiam !

Nomes diferentes ou desconhecidos apresentam a vantagem de indicar imediatamente ao leitor que ele está em outro lugar, outro tempo.

7. Uma das coisas que mais me chamou atenção durante a leitura do primeiro volume da série foram as várias referências a outros livros, não só de fantasia como Harry Potter ou O Senhor dos Aneis, mas também a clássicos da literatura universal como O Aleph, de Jorge Luis Borges e Orlando, de Virginia Wolf. A inserção dessas referências foi algo natural ou pensado especificamente de acordo com o desenvolvimento da narrativa e dos personagens?

Eu já tinha feito isso em “A Odalisca e o Elefante”, de outra forma. É totalmente natural. Porque os livros e os escritores de que gosto me acompanham e penso neles enquanto escrevo. Eles surgem aqui ou ali, na narração, para dar um oi.

Os leitores comentam muito nessas citações.  É interessante observar que o editor tinha reticências quanto a inclusão dessas homenagens. Eu insisti porque sou uma leitora antes de tudo e acho que um livro puxa outro. Que um escritor pode perfeitamente homenagear outros escritores e quem sabe levar o leitor a se interessar por eles.

8. Quando terminei a leitura de Os Gêmeos tive a impressão vívida de que aquilo tudo poderia muito bem acontecer. Alguns críticos dizem que ficção especulativa fala mais de tendências do presente do que do futuro, então o que em Salicanda você considera um reflexo (claro que extrapolado) do que acontece na sociedade hoje?

Algumas coisas já aconteceram: já começamos a dizimar as espécies animais e destruir o meio ambiente, já somos escravos de um tempo cada vez mais fragmentado, já estamos soterrados por um volume absurdo de informações inúteis. Mas como você salienta, o romance extrapola, força o traço. Não sou uma saudosista que acha que tudo era melhor “antes” ou uma catastrofista que vê o futuro como um pesadelo. Apenas me interessava pensar em algumas características de nossa época e imaginar o que aconteceria se…

O segundo livro da série já foi lançado na França e o terceiro está em fase de finalização.

9. Voltando à questão das línguas, qual foi sua contribuição na tradução do livro? Como foi essa experiência de voltar à história e pensar nas palavras e frases? Você acha que traduzir é um processo parecido com criar/escrever?

Foi muito legal trabalhar com Dorothée de Bruchard. Voltar à história e trabalhar o texto em português nem sempre é simples porque leio com duplo olho crítico: como escritora e como tradutora. Mas aí está o lado bom dessa história de traduzir-se a si mesma: você tem total liberdade ! Pode mudar, corrigir, transformar. Sem culpa nem medo de “trair” o autor. 🙂

10. O que podemos esperar dos próximos volumes da série?

Muitas coisas em vários volumes ! Mas não posso contar, não é? Só queria dizer que o ritmo das Crônicas não é um ritmo trepidante de ação desenfreada a cada página. É uma história para se instalar nela, se aconchegar, ler com tempo, chegar pertinho dos personagens… Um convite à viagem.

11. Que conselho você daria para um escritor de fantasia estreante?

Escrever. Ler. Escrever. Ler. Escrever… Anotar.

Estudar os autores que admira, como escrevem, como apresentam os personagens, como negociam as peripécias, como imprimem o ritmo à narração.

Orson Scott Card (mais um autor fantástico) teve a generosidade de escrever um livro chamado “Como escrever fantasy e ficção científica”. Nenhum livro pode ensinar a você como escrever o que você quer escrever. Mas pode dar boas dicas…

12. Um recado para os leitores do blog.

Acho muito legal esses blogs que permitem que os livros circulem e sejam compartilhados. Muitos fazem um trabalho maravilhoso. Mas não deixem ninguém decidir por vocês o que é bom ou não. Chequem ! Leiam !

Muito obrigada! 🙂

Muito obrigada a você, Melissa, por essa oportunidade de “conversar” com os leitores brasileiros ! Aqui vai o endereço do meu blog, exclusivamente dedicado aos leitores, onde publico artigos comentando o andamento das Crônicas e respondo a todas as perguntas e comentários. Apareçam! pauline.alphen.over-blog.fr

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Obrigada você, Pauline, que é uma querida! 🙂

Pessoal, não deixem de dar uma conferida no blog dela, que é super atenciosa e responde mesmo os comentários. A maioria das coisas por lá está em francês, mas existem alguns artigos em português e vocês podem comentar em português. Ah, e não deixem, é claro, de ler Os Gêmeos, primeiro volume da série Crônicas de Salicanda, que é um primor e tem resenha clicando aqui.

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15 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Karen Alvares
    abr 17, 2012 @ 01:16:43

    Mel, que demais essa entrevista! 🙂 Foi muito legal lê-la e conhecer mais da autora, do processo de escrita, enfim, só deu mais vontade de conhecer o trabalho dela. Ah, eu como eu gostaria de poder viver de direitos autorais… ou pelo menos sobreviver, complementar a renda. Trabalhar de verdade é tão chato. Quero escrever que nem ela! 🙂 Mas ela mesmo disse que não conseguiu por muitos anos… Eita vida.
    Ei, não vai ter sorteio do livro aqui no blog? Diz que sim, diz que sim! 🙂

    Responder

    • Melissa
      abr 17, 2012 @ 14:09:25

      Kakazinha, eu adorei fazer essa entrevista então fico feliz em saber que outras pessoas gostaram também!

      Viver de direitos autorais é um sonho, mas eu acho que temos que trabalhar em cima dele, sem desistir. Tudo bem que precisamos de um emprego paralelo e talz, mas acho que vale a pena trabalhar duro pra pelo menos ter um complementação de renda nisso. Eu não tenho devaneios de ficar milionária, mas queria tirar um dinheirinho sim.

      Ué, se muita gente pedir sorteio, eu posso mandar um e-mail pra parceira Companhia das Letras! 🙂

      Responder

  2. Liége
    abr 17, 2012 @ 01:38:37

    Realmente um primor essa entrevista! Sério! tem tanta coisa legal para comentar que nem sei o que escrever. Mas eu adorei a resposta à minha pergunta, fiquei super feliz de poder ter participado dessa forma. Obrigada mesmo, Melissa! Essa questão do tempo ser mais pausado no livro, é mesmo uma coisa muito boa. A gente anda tão acostumado com ritmos frenéticos que muitas vezes percebo que as pessoas exigem isso de livros, ganchos fenomenais, capítulos de tirar o ar, clímax atrás de ciímax… por que não saborear um mundo aos poucos?

    Me identifiquei pra caramba com o que a Pauline respondeu na questão 2, hehehe! Gostei muito mesmo de ter conhecido mais sobre a autora e agora estou ainda mais curiosa para ler o livro completo!

    Responder

    • Melissa
      abr 17, 2012 @ 14:11:19

      Liége, a sua pergunta foi bem legal! 🙂 Contribuiu bastante.

      Pois é, eu também acho que tem muito leitor “viciado” em livros com altas descargas de adrenalina. Eu gosto de livros assim, mas acho complicado achar que um livro só é bom se for escrito dessa forma. Livros mais lentos, com um ritmo diferente, podem ser tão legais quanto. Saborear um mundo aos poucos tem o seu valor, né?

      Responder

  3. Juliana Pires
    abr 17, 2012 @ 10:55:43

    Adorei!! Não precisso nem dizer que Os Gêmeos, esta na minha lista de proximas leituras. Gostei mesmo de conhecer mais sobre a autora, seu processo criativo e suas referênicas.
    Parabéns Mel pela entrevista que ficou muito boa. E parabéns a Pauline por ter escrito o livro! Sucesso as duas.

    Beijos

    Responder

    • Melissa
      abr 17, 2012 @ 14:12:12

      Ju, o livro é bem criativo e muito bem escrito. É um livro pra se mergulhar nele, ir curtindo aos poucos… uma experiência bem legal.

      Que bom que gostou da entrevista. Fico feliz. 🙂

      Responder

  4. Camila - Leitora Compulsiva
    abr 19, 2012 @ 14:27:03

    Oi Mel,
    Amei a entrevista!!!!
    Muito obrigada por dar essa oportunidade para a gente participar também!!
    Quero muito ler esse livro.
    Beijos
    Camis

    Responder

    • Melissa
      abr 20, 2012 @ 21:38:23

      Camis, que bom que gostou! 🙂
      Eu achei a sua pergunta muito interessante. Eu acho legal abrir espaço pras pessoas participarem, às vezes surgem coisas que a gente nunca questionaria. Essa pergunta sua mesmo é um exemplo disso!
      bjs

      Responder

  5. Liége
    abr 21, 2012 @ 01:25:50

    SORTEIO?? =D

    Responder

  6. Cronicas de Salicand (@Salicanda)
    maio 27, 2012 @ 16:14:18

    Adorei a entrevista, quando descobri que a autora era decendente direta de uma brasileira dei pulinhos de alegria e procurei por entrevistas com ela em português, mas só achei essa…
    Queria saber se você têm um banner do seu blog para eu poder colocar no meu, sem troca de banners, só acho super interessante tudo que você posta sobre as Crônicas e queria ajudar a divulgar.
    Apoio total o sorteio e vou participar, divulgar e tudo o mais possível!
    xoxo,
    Luísa.

    Responder

    • Melissa
      maio 28, 2012 @ 01:45:32

      Luísa, tem o banner do blog na barra lateral. É só clicar com o botão direito do mouse pra colocá-lo. Será ótimo se você pouder nos divulgar! 🙂
      bjs

      Responder

  7. Breno
    maio 28, 2012 @ 00:07:38

    Oii, acabei de comprar esse livro, tava passando pela livraria e ele me chamou muito a atenção 😀 Parece ser bem legal e tal, eu fiquei olhando no blog da autora e vi que já tinha foto do 3º livro, alguém pode me dizer quantos livros já tem no Brasil??
    Adorei também porque comecei a aprender francês esse ano *-*

    Responder

    • Melissa
      maio 28, 2012 @ 01:46:28

      Breno,
      Esse livro é bem legal sim. Vale muito a pena ler. No Brasil somente o primeiro livro foi lançado e a Companhia das Letras ainda não soltou uma previsão para o segundo.
      🙂
      Depois que ler, venha aqui dizer o que achou.

      Responder

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